O passeio mais simples que mais me marcou
De todos os passeios que já fiz na Patagônia em duas décadas, a navegação no Canal de Beagle é, ao mesmo tempo, o mais simples e um dos mais simbólicos. Não exige preparo físico, não tem trilha, não tem altitude. Basta embarcar. E ainda assim, foi essa experiência que me marcou na minha primeira viagem à região, em 2005 — e que repeti várias vezes desde então sem nunca cansar.
O que torna o Canal de Beagle especial é o ângulo de visão que ele oferece. Foi a quebra da ponta do continente — o mesmo movimento geológico que abriu o Estreito de Magalhães e criou a Ilha Grande da Terra do Fogo — que permitiu essa vista quase impossível em outros pontos dos Andes: a cordilheira inteira, na horizontal, bem na sua frente, vista de dentro do canal. Você está literalmente olhando para o final da Cordilheira dos Andes, a mesma cadeia de montanhas que nasce no norte da América do Sul e termina ali, antes de seguir submersa sob o Mar de Drake até reaparecer no continente branco, na Antártida.
O setor ocidental da Isla Navarino, no lado chileno do canal, visto em linha reta a partir da Costa de los Yámanas · Foto: Jeff Gonzalez
Os lobos marinhos e os cormorões que parecem pinguins
Pouco depois de sair do porto, o barco se aproxima de um conjunto de pequenas ilhas rocheiras. A primeira curiosidade é visual: colônias de cormorões que, à distância, parecem pinguins — mesmo porte, mesma postura ereta, mesma cor preto e branco. Muita gente se confunde na primeira vez.
Mas o verdadeiro espetáculo vem na ilha seguinte, onde dezenas de lobos marinhos se amontoam nas pedras. O barco encosta perto o suficiente para você sentir os grunhidos, os gritos e o movimento constante desses mamíferos de sangue quente que vivem ali o ano inteiro, mesmo nas águas geladas do canal. É um contraste e tanto: o frio do vento no seu rosto e a energia quase tropical daquela colônia inteira se mexendo, brigando e descansando ao mesmo tempo.
A colônia de lobos marinhos, com o Farol Les Éclaireurs recortado no horizonte · Foto: Jeff Gonzalez
O Farol Les Éclaireurs — e por que ele não é o "farol do fim do mundo"
Pintado em faixas vermelhas e brancas sobre as rochas, o Farol Les Éclaireurs é a imagem mais fotografada do Canal de Beagle e, para muita gente, virou sinônimo de "farol do fim do mundo". Mas, sendo sincero como sempre fui com meus viajantes: tecnicamente não é. O farol oficialmente batizado de fim do mundo é o Farol San Juan de Salvamento, localizado na remota e inóspita Isla de los Estados, a cerca de 250 km a leste de Ushuaia — praticamente inacessível ao turismo regular.
Ainda assim, vamos ser sinceros: quando você está parado ali, vendo o Les Éclaireurs contra o céu patagônico e a cordilheira ao fundo, e olha no mapa onde está, a sensação de estar no fim do mundo é real. E não é por acaso que esse trecho de água carrega tanta história — foi por esse canal que passaram, em diferentes expedições e épocas, nomes como Charles Darwin, Fitz Roy e até referências na obra de Julio Verne.
O porto de Ushuaia, ponto de saída de todas as navegações pelo Canal de Beagle · Foto: Jeff Gonzalez
Quer reservar essa navegação? Saída do porto de Ushuaia, roteiro clássico até o Farol Les Éclaireurs.
Ver opções e reservar →A opção de ir até a pinguineira
Quem quer estender o passeio pode incluir a Isla Martillo, conhecida como a pinguineira, onde é possível caminhar entre colônias de pinguins-de-magalhães em liberdade, a poucos metros de distância. Eu já fui várias vezes — tanto só na navegação clássica do canal quanto incluindo a pinguineira — e nunca canso de voltar. É um passeio simples, costuma ter bastante movimento na alta temporada, mas vale cada minuto.
Na Isla Martillo, a pinguineira que pode ser incluída no roteiro estendido do Canal de Beagle · Foto: Jeff Gonzalez
2009: a vez que cheguei a Ushuaia sozinho, de carro
Em 2009, decidi me testar: sair de casa e ir até Ushuaia de carro, sozinho, sem pressa. Foram 8 dias de estrada, com paradas em pontos especiais da Patagônia ao longo do caminho, até chegar ao fim da Ruta 3 — literalmente o ponto onde a estrada termina. Cheguei, e a primeira coisa que fiz foi embarcar de novo no catamarã para navegar uma vez mais pelo Canal de Beagle. Foi como fechar um ciclo: a mesma água, a mesma cordilheira, mas eu chegando ali de um jeito completamente diferente da primeira vez.
Ushuaia ao anoitecer, vista do Canal de Beagle — a cidade que vive na sombra da cordilheira · Foto: Jeff Gonzalez
Roteiro Patagônia Sob Medida
Quer viver isso com quem já fez esse passeio mais de uma vez?
Depois de 21 anos guiando viagens pela Patagônia argentina e chilena, eu desenho roteiros sob medida — incluindo o melhor momento, o melhor roteiro e os detalhes que só quem já esteve ali sabe recomendar.
Quero meu roteiro sob medidaPor que esse passeio simples merece um lugar especial no roteiro
Não é o passeio mais radical, nem o mais longo, nem o que exige mais preparo. Mas, depois de ver glaciares, trekkings e travessias inteiras pela Patagônia ao longo de 21 anos, ainda considero a navegação no Canal de Beagle um dos momentos mais emblemáticos para começar — ou fechar — uma viagem a Ushuaia. É rápido, é acessível, e entrega uma das vistas mais marcantes de toda a região: a cordilheira dos Andes, na horizontal, na sua frente, no ponto exato onde o continente se quebra rumo à Antártida.